Bem-Estar

“Não sou tão triste assim, é que hoje estou cansada...”

Essa frase foi dita pela escritora Clarice Lispector numa emblemática entrevista. E ela consegue definir muitos de nós hoje: semblantes tristonhos emoldurados pelo cansaço. Esta reportagem é para você que tem centenas de mensagens não lidas, não dá conta de respondê-las, mas também não se aquieta por saber que elas se acumulam. É para você que não consegue fazer uma refeição em silêncio ou perde o sono pensando na lista de afazeres. Afinal, estamos vivendo ou apenas “matando leões”?

Antes de passar as páginas correndo, permita-se ler as próximas linhas e refletir sobre isto: o quanto a sobrecarga mental está afetando nossa saúde? “Não é que temos a sensação de estarmos sempre ocupados. De fato, estamos! Essa aceleração vem da rotina que temos levado e o mundo virtual contribui com excesso de opções, de velocidade e de informação. São muitas preocupações em várias áreas da vida e somos cobrados para ter perfeição em todas elas. A principal consequência são os transtornos de ansiedade: pânico, fobia, toque, ansiedade generalizada ou ansiedade social, ansiedade ligada à depressão e a transtornos de personalidade”, explica a psicóloga Camila Pusebon Muller.

Mente sobrecarregada, corpo em alerta

Uma pessoa sobrecarregada mentalmente pode desenvolver problemas físicos: dores de cabeça e estômago, úlcera, gastrite, labirintite, pressão alta, entre outros. Cada organismo reage de uma forma, mas segundo a psicóloga, a atenção deve estar voltada para três pontos: intensidade, frequência e duração desses sintomas! “Quem sente o coração acelerado, por exemplo, precisa avaliar: sente isso antes de uma apresentação e depois passa ou muitos dias antes já fica sofrendo? O sinal de alerta se acende quando esse sentimento é muito intenso e a pessoa não consegue controlar, desperta crises de choro e afeta a vida social a ponto de não ter vontade de fazer os autocuidados básicos como tomar banho”.

Aprenda a descansar, não a desistir

A fotógrafa Crislaine Lazarini tem dificuldade de relaxar. Ela chegou a acumular três trabalhos distintos. “Sinto culpa quando estou ‘parada’. Parece que preciso ser útil toda hora. Teve um dia que eu estava tão cansada que parei no meio da rua e não sabia mais o que estava fazendo, nem onde ia. Vivo esquecendo as coisas! Tive crise de ansiedade, dores de cabeça, no estômago, cansaço exagerado e irritação”, relata.
Nesses casos, a recomendação profissional é aprender a lidar com os pensamentos sabotadores. “Ao chegar em casa, você pode fazer um ritual: colocar uma caixinha na entrada, pegar e mentalizar ‘agora deposito minhas preocupações de trabalho aqui, porque da porta para dentro é o meu local de descanso, então decido deixar minhas inquietações lá fora”. Isso é mágico? Não. Talvez você entre e continue pensando nas coisas, então precisa dar uma resolução para esses pensamentos. Se tem algo de trabalho para fazer amanhã cedo e isso está te inquietando porque não terá tempo, defina que você vai acordar mais cedo e dê uma solução para esse pensamento sabotador”, aconselha Camila.
Essa tem sido a tentativa da Crislaine: colocar o mundo em “modo avião” por umas horinhas para que ela possa se priorizar. “Desligo o celular. Comprei teclado para tocar e desestressar, comprei patins para andar no quintal.  E o que me ajuda demais é ver a natureza”, conta.

E se o trabalho invadiu o lar?

“O ideal é que haja separação de ambientes das atividades da casa e do trabalho. É importante que haja um espaço diferente para trabalhar, nem que seja na mesma mesa do café, mas que a refeição saia de cena para que a mesa realmente vire escritório. A sala onde você vê um filme, onde brinca com seus filhos, não é local para isso. Não tem outra opção? Adapte o lugar para que o cérebro entenda que, naquele horário, o local precisa ser de produtividade e não de lazer. E respeite os limites: não faça atividades da casa durante o expediente e também não deixe as preocupações de trabalho tomarem conta do seu período de descanso”, recomenda a psicóloga.